segunda-feira, outubro 01, 2007

Andréa Neves ascende como guardiã da imagem do irmão

(César Felício e Ivana Moreira, para o jornal Valor Econômico de hoje, 01/10)

Uma menção aparentemente gratuita da Polícia Federal no inquérito sobre o mensalão mineiro jogou luz sobre uma das peças-chave do governo de Aécio Neves (PSDB). A referência traz à superfície a discreta jornalista e historiadora Andréa Neves da Cunha, 48 anos, irmã mais velha de Aécio, oficialmente chefe do serviço de assistência social do Estado e comandante de fato da área de comunicação da administração. Conhecido por delegar funções, Aécio assenta seu governo em um tripé: a parte administrativa está sob o comando do vice-governador Antonio Junho Anastasia, a costura política local fica a cargo do secretário de Governo, Danilo de Castro. Imagem e estratégia estão com a irmã.

Na página 86 do inquérito, trata-se de Lidia Maria Alonso Lima, a beneficiária de um saque de R$15 mil de uma das contas controladas pelo publicitário Marcos Valério de Souza. Como várias outras pessoas da lista, Lidia Maria disse à Polícia que recebeu os recursos a pedido de um candidato, no caso o pemedebista, já falecido, Eduardo Brandão. Em seguida, o relatório detalha: "Lídia Maria na época deste recebimento trabalhava na empresa Comercial Factoring Ltda, de propriedade de Andréa Neves da Cunha. Em outro depoimento, Lidia Maria relata ter feito parte dos quadros societários da empresa Taking Care, juntamente com Andréa Neves".

A menção a Andréa ocorre no momento em que a jornalista comanda a operação para minimizar os danos do noticiário do mensalão sobre seu irmão. Partiu da jornalista, isolada em seu gabinete no Serviço de Assistência do Estado (Servas) e em permanente contato com assessores do governo, a estratégia de aguardar uma semana de repercussão para que Aécio se pronunciasse publicamente.

Hábil em operações de blindagem e preservação de imagem, Andréa Neves só conversa sobre si com jornalistas amigos. Sua única atuação como profissional de imprensa foram algumas reportagens feitas para a revista "Pais e Filhos", nos anos 80. Ao vir para o primeiro plano, atribuiu à sua equipe a tarefa de detalhar sua situação empresarial. Assessores do governo mineiro esclarecem que Andréa foi dona da empresa de factoring entre 1993 a 1999, até a morte do marido e sócio Herval Braz, depois de um ano de luta contra o câncer. Tinha 50% do capital. Em 1996, montou com Herval, também jornalista e editor-chefe do jornal "Hoje em Dia", o segundo mais lido de Belo Horizonte, uma empresa de aluguel de carrinhos de bebê em shopping centers, com o nome em inglês. Ao ficar viúva, fechou a empresa de fomento mercantil e substituiu Herval pelo próprio Aécio, então deputado federal, como sócio da Taking Care.

Eleito governador em 2002, quatro anos depois do depósito de Marcos Valério para a funcionária de Andréia, Aécio saiu da sociedade e foi substituído, durante três anos, por Lidia Alonso. A Taking Care não é a única empresa da jornalista, cuja ascendência sobre o irmão é alvo de uma vasta mitologia em Minas Gerais. Andréa também está à frente da NC (Neves da Cunha) Participações, empresa que gere investimentos em comum dos irmãos (além do governador, há a irmã caçula, Ângela, dona de casa) e principal item patrimonial de Aécio em sua declaração de bens de 2006, quando o governador afirmou possuir cotas de capital no valor de R$193,4 mil.

Segundo a jornalista informou por meio da assessoria de imprensa do governo, a NC fora concebida para a administração de imóveis, mas hoje tem como única fonte de renda o aluguel de uma sala comercial na Avenida do Contorno, em Belo Horizonte. Andréa ainda é a responsável por duas emissoras de rádio FM, em Betim e São João del Rey, concessões dadas à família durante o governo Sarney.

Na campanha de 2006, em que Andréa atuou como uma das coordenadoras da reeleição do irmão, ela já havia sido o principal alvo da oposição. E como costuma acontecer na luta política do Estado, de forma indireta: seu nome constou como uma das operadoras no Estado do suposto caixa 2 descrito pela "Lista de Furnas", um documento cuja autenticidade está comprovada pela Polícia Federal, mas cujo conteúdo foi declarado falso pela CPI dos Correios. A lista foi colocada na Internet por militantes do PT mineiro. Andréa também ganhou ares de rainha cortadora de cabeças: circulou na Internet um vídeo onde seis jornalistas a responsabilizam diretamente pelas suas demissões, por terem feito reportagens que teriam desagradado o Palácio da Liberdade. A campanha de Aécio posteriormente conseguiu que dois dos jornalistas desmentissem a versão.

Adversários do PSDB e aliados são quase unânimes em afirmar - sempre sob reserva - que Andréa não cuida da captação de recursos e pagamento de fornecedores nas campanhas que se envolveu - todas as disputadas pelo irmão, desde a fracassada tentativa de se eleger prefeito de Belo Horizonte em 1992. Apesar da negativa do governo do Estado sobre a blindagem do governador, na primeira semana de repercussão do chamado "mensalão mineiro", o tema foi ignorado pelos jornais de Belo Horizonte.

O gerente de uma emissora de televisão relata casos em que funcionários da secretaria de Comunicação teriam obrigado repórteres a refazerem entrevistas, porque não gostaram das perguntas feitas a autoridades estaduais. Jamais partiu de Andréa, contudo, a iniciativa de ligar para uma chefia de redação. As reclamações partem de seus comandados, que negam, peremptoriamente, terem algum dia exigido a cabeça de qualquer jornalista.

Chefe do serviço de assistência social do Estado, Andréa é comandante de fato da área de comunicação.

Oficialmente, Andréa coordena o "Grupo Técnico de Comunicação", uma equipe de pelo menos doze profissionais de mídia empregados na estrutura do Estado que determina as ações de marketing. Um integrante deste grupo relatou a um amigo a cena de uma reunião. Segundo o relato, discutia-se a presença ou não do governador em um evento público que também contaria com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Aécio havia decidido não comparecer.

Depois de ouvir o colegiado, Andréia teria ligado para o irmão e dito que Aécio deveria ir. O governador ainda teria resistido, ela argumentou que, em situação semelhante, outros governadores oposicionistas como José Serra iriam. Aécio acabou comparecendo. A cena não é confirmada pela assessoria de Andréa.

Este não é o único ambiente em que Andréa discute estratégia de comunicação. A jornalista também participa de encontros eventuais de Aécio com estrategistas de marketing político e diretores de institutos de pesquisa. No primeiro mandato do governador, fazia parte de um grupo ouvido por Aécio sobre a orientação política de seu governo.

Nenhum aliado ou adversário de Aécio confirma a corriqueira versão de que Andréa seria plenipotenciária no governo, mas todos convergem na construção da mesma imagem: a irmã mais velha comporta-se de modo maternal com o governador. De longe, seria a pessoa com maior ascendência sobre Aécio Neves. Ela detesta esta versão. Por meio da assessoria de imprensa do governo, lembrou que Aécio foi eleito presidente da Câmara em 2001 e quatro vezes feito líder da bancada tucana, sem que a irmã tenha sequer se aproximado de Brasília.

A relação entre Andréa e Aécio - eles nasceram, respectivamente, em 1958 e 1960 - estreitou-se em decorrência de uma dificuldade encontrada na infância: a separação dos pais, o então deputado Aécio Cunha e Inês Maria Neves, filha do presidente Tancredo Neves, falecido em 1985. O caminho dos dois se bifurcou após a adolescência.

Andréa foi estudar história e jornalismo na PUC do Rio, participou da fundação do PT fluminense e começou a transitar nos círculos esquerdistas da zona sul carioca. Tornou-se notícia pela primeira vez ao testemunhar a explosão do Puma ocupado por um sargento e um capitão do Exército no estacionamento do Riocentro, em 1981, provavelmente uma mal-sucedida operação terrorista para sabotar a abertura política. Aécio foi para Belo Horizonte estudar economia na PUC mineira e assessorar o avô.

A convergência voltou a ocorrer em 1984. Depois da derrota da emenda das eleições diretas no Congresso, Andréa tornou-se a coordenadora no Rio da campanha que visava manter a mobilização popular em torno da eleição indireta para presidente. O grupo conseguiu atrair diversas personalidades da época: do travesti Roberta Close à atriz Cristiane Torloni, do grupo de rock Ultraje a Rigor a jogadores de futebol e ao escritor Ziraldo. Estava com Andréa um grupo que posteriormente se tornou heterogêneo: continha desde futuros tucanos como o atual deputado e ex-prefeito de Vitória, Luiz Paulo Velloso Lucas (PSDB), ou o futuro parlamentar Milton Temer, hoje ex-deputado e integrante do P-Sol. Aécio tornou-se secretário particular do avô e herdeiro político designado.

Após a morte de Tancredo e o casamento mal sucedido de Aécio, Andréa passou um ano em Nova York e, ao voltar, começou a ter papel ascendente em sua família: organizou o Memorial Tancredo Neves em São João del Rey, a pedido da avó Risoleta. Só voltou a Belo Horizonte em 1991, quando tornou-se secretária-adjunta de Cultura no governo Hélio Garcia.

O perfil radical de Andréa nos anos 80 se esfumaçou. A jornalista tem uma filha, Maria Clara, de seu primeiro marido, já falecido. Hoje está casada com o empresário Luiz Márcio Pereira, diretor do Sebrae mineiro e filho do ex-governador Francelino Pereira e comanda de forma original a assistência social em Minas. Destaca-se na filantropia estadual o alto grau de parcerias com grandes empresas e entidades patronais. A lista é extensa: empreiteiras como Camter, Barbosa Mello, Egesa, Fidens e Libe, bancos como o Itaú, multinacionais como a Nestlé e o McDonald"s, empresas do setor siderúrgico-minerador como CBMM, Mannesmann e Usiminas são apenas algumas. Na outra ponta, os recursos são distribuídos para entidades em todo o Estado.

Procurada por este jornal por dez dias, Andréa informou, via sua assessoria, que não concederia entrevista sobre questões pessoais.

4 comentários:

Anônimo disse...

Impressionante a riqueza de detalhes!!
Mas mesmo assim aposto que isso não será noticiado na imprensa mineira.
Essa Andréia provavelmente vai tentar negar ou se não for possível diante dos fatos, vai apresentar outra versão do que for possível.

Clarice disse...

infelizmente, eu acho que você ganha essa aposta, caro anônimo. mas só de ter saído em ALGUM jornal, e ainda mais um jornal de relevância nacional, ah, já é uma vitória, e alimenta minha esperança de que essa farsa não acabe no palácio do planalto! abs!

Anônimo disse...

pronto, ela que arrajou o namoro com a Miss! Esta mulher é uma gênia! Por causa dela vamos ter que um dia, aguentar o Aecio presidente e com ele todo o mundo da fantasia...

Eduardo Ferrari disse...

Muito interessante o seu blog. Parabéns. Também já escrevi sobre isso e conheço pessoalmente os jornalistas do Valor que fizeram a matéria. Andréa Neves náo se pronunciou (veja o que esta no meu blog - http://soembeaga.blog.com), mas andou reclamando do Valor Econômico para outros veículos e editores mineiros. Abraços