(Por Pedro Venceslau, publicado na edição de novembro de 2007 da Revista Fórum)
Nelson Rodrigues costumava dizer que toda unanimidade é burra. Em Minas Gerais, a unanimidade em torno do governador Aécio Neves vai mais longe. É, além de burra, truculenta, cega e venal. Nenhum outro governador brasileiro ostenta índices tão altos de aprovação e popularidade. Apontado como um dos favoritos ao Planalto em 2010, Aécio raramente aparece na mídia em situações desconfortáveis ou constrangedoras. Quando isso acontece, como no caso do "mensalão tucano", a imprensa mineira é a última tocar no assunto. Via de regra, espera um sinal de fumaça do Palácio da Liberdade para entrar na pauta, sempre na esteira da defesa do governador. Mas de onde vem esse fervoroso engajamento jornalístico? Será bairrismo em torno da perspectiva de um mineiro na presidência? Ou é o fato de o governador ser jovem, boa pinta e austero com as finanças?
Nos bastidores do Palácio da Liberdade, sede do governo mineiro, existe uma azeitada máquina de comunicação e propaganda trabalhando a todo vapor para manter a imagem de Aécio intacta e em alta até as eleições de 2010. Esse projeto de poder, que começou a ser gestado em 2002, é baseado no binômio truculência e dinheiro. Em Minas, é proibido falar mal do governador. Casos de jornalistas que ousaram quebrar essa regra e foram demitidos ou ameaçados existem aos borbotões. O resultado, em muitos casos, é a opção pela auto-censura como forma de sobrevivência.
Esse consenso tem sido financiado por uma farta publicidade estatal. Não é a administração direta, mas as estatais que mais gastam em comunicação e publicidade. Com isso, fica mais difícil a fiscalização da Assembléia Legislativa, que ainda por cima conta com uma oposição pouco coesa. "Minas é um estado com alto grau de censura. A imprensa, aqui, é porta-voz do governo Aécio. Existem muitas denúncias de jornalistas perseguidos pelo Palácio da Liberdade. A intervenção do governo se dá de forma direta. Eles pedem a demissão de funcionários e, em muitos casos, são atendidos. Hoje, a censura é mais econômica, já que a cota de publicidade (estatal) nunca foi tão alta. O gasto de publicidade de Aécio cresceu 500% em relação a Itamar. Na execução fiscal de 2006, ele gastou 400% a mais que o previsto", relata o deputado estadual Carlin Moura, do PCdoB.
A pedido da Fórum, Carlin enviou um requerimento ao governo pedindo uma planilha detalhada com todos os investimentos publicitários do estado, incluindo as estatais. Até o fechamento desta edição, esses dados ainda não haviam sido liberados. "Existe uma caixa preta, já que a maioria dos gastos é feita por empresas estatais, como a Cemig e a Copasa, sobre as quais a Assembléia não tem controle. Eles não dão as rubricas separadas", conclui Carlin. Em tempo. Segundo dados do Diário Oficial de Minas, a Copasa gastou, só no primeiro trimestre de 2007, R$5.208.000. A estatal opera com duas agências, a 3P Comunicação e a RC Comunicação Ltda. No segundo trimestre, a estatal gastou mais R$6.615.000, sempre com as mesmas agências. "As empresas são obrigadas, por um dispositivo legal, a informar o volume de gastos, mas não temos como fazer o acompanhamento orçamentário", informa um assessor da Assembléia Legislativa. O Diário Oficial informa, ainda, que, em 2007, a Secretaria de Estado de Governo já ultrapassou os R$30 mil.
Não foi por acaso que Minas Gerais foi o estado que registrou a maior adesão à Semana de Democratização da Mídia. No último dia 5 de outubro, cerca de mil manifestantes de entidades como Abraço, FNDC, Fenaj, CUT, UNE e MST se concentraram em frente ao Palácio da Liberdade. Além de pedir transparência nos processos de concessão de TV, os mineiros denunciaram a falta de liberdade de imprensa no estado. "Em Minas Gerais a liberdade de pensamento é muito mais atacada, pois vivemos sob uma pesada censura praticada pelo governo do estado em parceria com os donos dos principais veículos. Com o objetivo de promover a blindagem em torno da figura do governador Aécio Neves, vários jornalistas foram demitidos por produzirem matérias que desagradaram o Palácio da Liberdade. Depois dessa perseguição, nunca mais se viu ou se ouviu uma única reportagem que contrariasse o interesse da elite que governa Minas Gerais", resumiu o manifesto batizado de "Carta de Belo Horizonte", produzido pelos manifestantes.
"O maior jornal do estado, O Estado de Minas, eu chamo de 'O Estrago de Minas'. Ele é totalmente ligado ao governador. A verdade é que todos estão comprometidos. Não sobra nenhum. Chamam o Aécio de 'o filho do avô'. Ele não tem tradição nenhuma na política, mas é blindado. Por quê? Falam do mensalão mineiro, mas deviam investigar é o mensalão da mídia mineira", diz José Guilherme Castro, coordenador de comunicação e cultura da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Abraço) e secretário geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC). "Aqui em Minas não saiu nada sobre o mensalão mineiro. Só começaram a publicar essa história quando veio a reação do Aécio", conclui Kerisson Lopes, um dos organizadores da manifestação do dia 5 de outubro, em Minas.
Neste último mês, Fórum conversou com jornalistas, políticos, pesquisou números e levantou histórias reveladoras sobre os bastidores de uma relação mais que promíscua entre o primeiro e o quarto poder em Minas Gerais.
Coco e romance em Ipanema
Em plena tarde de quinta feira, três carros de luxo estacionam em frente a um quiosque de Ipanema, na altura do Jardim de Alah. Os curiosos param para ver a cena. Um casal desce cercado por seguranças e pede água de coco. No dia seguinte, os jornais cariocas revelam o nome dos pombinhos: Aécio Neves e a miss Natália Guimarães. A nota repercutiu no país inteiro, menos em Minas Gerais. Ocorre que, naquele mesmo dia, o governador tinha um importante compromisso – uma solenidade em homenagem à cultura mineira. Diante da inusitada ausência do governador, o vice Antônio Augusto Anastasia teve de improvisar o discurso. Esse pequeno episódio foi lembrado pelo deputado Carlin para um plenário vazio na Assembléia Legislativa de Minas.
Não houve repercussão. Ninguém tocou no assunto, nem mesmo nas colunas sociais locais. O "namoro" só veio à tona na base de Aécio quando sua assessoria achou conveniente. "O romance do governador com a miss Brasil", estampou, na capa, a revista IstoÉ Gente do último dia 15 de outubro. O episódio é menor, mas cheio de significado. Apesar do clima de macartismo, alguns profissionais ousam revelar os bastidores do esquema. Fórum conversou com um dos editores de um dos maiores jornais mineiros. Por motivos óbvios, ele pede para não ter seu nome revelado. "As pautas chegam com algumas rec's (recomendações). É o editor-chefe quem administra isso. Ele precisa ter jogo de cintura. Para garantir essa blindagem, o governo ataca em massa e manda fazer cadernos especiais de estatais, especialmente da Copasa. Quem cuida dessa interlocução diretamente é a irmã do Aécio, Andréia Neves. É ela que manda na área de imprensa. O Aécio paira por cima. Andréia provocou a demissão de vários companheiros."
O nome de Andréia Neves da Cunha, 48 anos, irmã mais velha de Aécio e chefe do serviço de assistência social do estado, causa calafrios nas redações mineiras, especialmente nas de Belo Horizonte. Apesar de, formalmente, ocupar um cargo que tradicionalmente pertence à primeira dama, na prática é ela a comandante de fato da área de comunicação da administração. Em reportagem publicada em outubro no jornal Valor Econômico, os repórteres César Felício e Ivana Moreira revelaram ao Brasil o que todo jornalista mineiro já sabia. Coube a Andréia o comando da operação colocada em curso para minimizar os danos do noticiário do mensalão tucano sobre seu irmão. Foi ela que decidiu pela estratégia de aguardar uma semana para que Aécio se pronunciasse oficialmente.
Além do serviço social, a irmã de Aécio também comanda o Grupo Técnico de Comunicação, uma equipe de 12 profissionais de mídia empregados na estrutura do estado e que determina as ações de marketing. Não é exagero dizer que esse é o quartel general da inquisição.
Andréia mãos de tesoura
Era para ser apenas um trabalho de conclusão de curso, mas se tornou um dos vídeos mais assistidos do site YouTube. Em 2003, o estudante de comunicação da UFMG, Marcelo Baeta, recebeu anonimamente uma lista de jornalistas demitidos a pedido do governador. Ficou com a pulga atrás da orelha e passou a prestar mais atenção no noticiário. A decisão definitiva de fazer um documentário foi tomada em novembro de 2004, quando o governo lançou uma campanha maciça para anunciar o "déficit zero". Baeta notou que a matéria do repórter Ismar Madeira, no Jornal Nacional, era bem parecida com os anúncios publicitários do governo do intervalo, onde um ator-repórter anunciava que "Minas Gerais superou uma década no vermelho". Um escândalo. No fim da noite, Aécio apareceu no programa Jô Soares, no qual foi fartamente elogiado pelo apresentador bonachão.
A apuração de Baeta revelou a faceta mais brutal do governo Aécio. Um dos entrevistados foi o jornalista Marco Nascimento, hoje diretor de jornalismo da TV Gazeta, em São Paulo. Ele conta, sem rodeios, que Andréia Neves pediu sua cabeça logo depois das eleições, quando Nascimento era diretor de jornalismo da Globo MG, em função de uma série de matérias "que estavam sendo ruins para o governo". "Imaginei que contaria com o apoio da Globo no Rio, mas estava enganado", disse a Baeta. Procurado por Fórum, Nascimento disse que prefere não falar mais sobre esse assunto. Ele não imaginava que um trabalho de conclusão de curso fosse ter tamanha repercussão, a ponto de ser citado em matérias publicadas na Europa.
Outro que denunciou os abusos de Aécio, mas acabou voltando atrás, foi o jornalista esportivo Jorge Kajuru. Em maio de 2004, ele ficou furioso na véspera de um jogo da seleção brasileira no Mineirão. Com o microfone em punho, esbravejou: "Sobra ingresso para os convidados do governador de Minas, falta para o torcedor". Resultado: foi demitido no intervalo. Irado, Kajuru fez um desabafo no programa do apresentador Clodovil. "A irmãzinha dele (Aécio) pede a cabeça de jornalista. Tem jornalista em Belo Horizonte perdendo emprego por causa dela. A emissora sofreu uma pressão enorme. Aécio deve estar rindo agora."
Não resta dúvida de que o período mais agressivo das investidas de Andréia Neves contra os jornalistas foi entre 2003 e 2004. "Nos primeiros anos de governo, recebíamos muitas denúncias graves de jornalistas que reclamavam de cerceamento por parte dos editores. Havia ingerência direta do governo e da assessoria na cobertura. Era escancarado. Os proprietários eram pressionados e pressionavam os editores para barrar a divulgação de matérias ruins para o governo", revela Alexandre Campelo, diretor do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais. "Os repórteres denunciavam mudanças e distorções nas matérias que escreviam. Nos últimos dois anos, as queixas diminuíram. Na minha opinião, a pressão, hoje, é mais financeira. A conjuntura profissional – leia-se falta de emprego – colabora para deixar os jornalistas com medo. A cobertura, por sua vez, continua chapa branca. É difícil ver notícias de impacto contra o governo ou o governador. Denúncias só aparecem em veículos de outros estados", completa.
O caso Lindemberg
Não é de hoje que a imprensa mineira mantém relações promíscuas com o governo estadual. Há quem diga que a tradição nasceu com Assis Chateubriand e seu império, os Diários Associados, grupo que ainda hoje é forte no estado – é dono do jornal O Estado de Minas. Especulações à parte, existe um episódio curioso que passou completamente batido pela grande imprensa nacional, mas que merece ser observado com lupa. No último dia 19 de setembro, a revista IstoÉ publicou uma reportagem explosiva: "Exclusivo: Os documentos do mensalão mineiro".
A repercussão foi imediata em todo o país, menos em Minas. Mas isso não vem ao caso. O que chama atenção é o fato de que o documento que deu origem à matéria – um relatório da Polícia Federal – está, hoje, disponível na internet para quem quiser ler e repercutir. Mas, curiosamente, existe pouca gente interessada no assunto. Fórum imprimiu e esmiuçou as 172 páginas do relatório. E descobriu que ainda existe muita pauta quase inédita para ser publicada. Em linhas gerais, o relatório – que se refere ao período em que o tucano Eduardo Azeredo foi governador e candidato a reeleição – mostra que toda a estrutura de caixa dois criada por Marcos Valério passava pela comunicação, por meio da simulação de gastos com comunicação.
Mas isso também não é novidade. Na página 151, entretanto, um nome salta aos olhos: Carlos Lindemberg Spínola Castro. Para quem não sabe, ele era na época e ainda é editor do jornal Hoje em Dia, que pertence à Igreja Universal e é um dos maiores do estado. No período investigado, o ano de 1998, quando Azeredo tentou a reeleição, Lindemberg recebeu da SMP&B, portanto da campanha, R$130 mil para dar "opiniões políticas". Em depoimento para a Polícia Federal, ele reconhece que recebeu R$50 mil. Existe algum problema no fato de Lindemberg ser o responsável por um dos principais jornais do estado e receber dinheiro da campanha do governador que tenta a reeleição? A imprensa mineira acha que não. Tanto é que apenas um site no estado, o Novo Jornal, tocou no assunto. Outros jornais e revistas do Brasil chegaram a ensaiar a publicação do caso, mas foram "convencidos" a deixar quieto.
Fórum conversou com Lindemberg, que se defende. "Não existe relação entre uma coisa (ser diretor de um jornal) e outra (prestar serviço como consultor). Sempre prestei consultoria. Não trabalho para nenhum político ou agência, fui pago por uma agência de forma limpa. Tanto é que não há ilicitude em relação a mim." Além de dizer que toda unanimidade é burra, Nelson Rodrigues (sempre ele) também disse, certa vez, em sua Flor de Obsessão: "o mineiro só é solidário no câncer". Dessa vez, contudo, parece que ele errou.
Jornal mineiro é o mais vendido do Brasil
Pela primeira vez na história da imprensa brasileira os mineiros têm um jornal que é líder de circulação no país. Informa o Instituto de Verificador de Circulação (IVC) de agosto que o Super Notícia, tablóide diário de 25 centavos, vem mantendo uma média diária de 300.322 exemplares distribuídos. Isso é mais que a Folha de S.Paulo (299.010), O Globo (276.733), Extra (238.937) e O Estado de S.Paulo (238.752). Com 32 páginas de editorial e 13 de anúncio, o Super se transformou em um fenômeno abusando de sangue, mulher e futebol e reciclando material editorial dos jornais O Tempo e Pampulha, que pertencem ao mesmo grupo. O pai da idéia e dono do jornal é o empresário e político Vittorio Medioli, ex-deputado federal pelo PSDB, atualmente no PV.
terça-feira, janeiro 15, 2008
Macartismo Mineiro
segunda-feira, novembro 26, 2007
Sobre o valerioduto tucano
Apanhado de posts reproduzidos do blog Amplifique, do Marcelo Baêta:
23/11/2007
"Minas unida" em 2010
Da Folha hoje:
"As investigações que resultaram na denúncia do valerioduto tucano tiraram da cena eleitoral de 2008, em Belo Horizonte, Walfrido dos Mares Guia e Eduardo Azeredo. Na avaliação do PT e do PSDB mineiros, mesmo que Walfrido e Azeredo neguem culpa no esquema de 1998, a condenação eleitoral já teria ocorrido.
Walfrido (PTB) era o único que poderia aproximar o PT do PSDB, solução que agradaria o prefeito petista Fernando Pimentel e o governador tucano Aécio Neves. Walfrido tinha bom trânsito com petistas e tucanos e figurou na lista do prefeito Pimentel como candidato à sua sucessão em coligação com o PT.
Já Azeredo era o nome mais forte do PSDB para ir para a disputa eleitoral e tentar desbancar os petistas, que, se vencerem, completarão 20 anos de poder no município. A opção Walfrido poderia ser até mesmo usada por Aécio Neves, que nunca escondeu que seu desejo é, se viabilizado candidato a presidente, ir para a disputa nacional com 'Minas unida'."
Aécio escapa da denúncia do mensalão mineiro
Da Folha hoje:
"O procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, deixou de fora da denúncia do valerioduto tucano e das sugestões de novas investigações políticos que receberam dinheiro do caixa dois da campanha de Eduardo Azeredo em 1998. Segundo ele, as irregularidades prescreveram em 2006.
Foram excluídos nomes da lista atribuída a Cláudio Mourão, coordenador financeiro da campanha. Constava da relação, entre outros, o governador Aécio Neves (MG), então deputado federal, com a anotação de R$110 mil. A PF destacou depósito de R$15 mil a ex-sócia da irmã de Aécio, Andréia". Assinante lê mais aqui.
Para Marcelo Leonardo, políticos mineiros foram poupados
Da Folha hoje:
O advogado de Marcos Valério Fernandes de Souza que cuida da parte criminal do caso, Marcelo Leonardo, contestou a denúncia feita ontem pela Procuradoria-geral da República, afirmando que ela é 'incoerente' em comparação com a denúncia do mensalão do PT.
'Pode-se registrar uma incoerência do procurador entre o inquérito 2245 [mensalão] e esta, na medida em que ele excluiu [da denúncia de ontem] todas as pessoas que receberam valores, justificando que isso seria crime eleitoral, que já está prescrito', disse Leonardo. Mas, segundo ele, no mensalão 'foi dito que era corrupção', e não crime eleitoral.
***
O prestigiado advogado mineiro Marcelo Leonardo ressalta que os políticos que receberam dinheiro no mensalão petista foram acusados de corrupção. Já os políticos que receberam dinheiro no mensalão tucano foram acusados de crime eleitoral, já prescrito.
Segundo o raciocínio de Marcelo Leonardo, os políticos que receberam dinheiro do valerioduto tucano foram favorecidos, receberam tratamento mais brando. Em outras palavras, não pagarão pelos seus crimes.
Entre os políticos que se enquadram no caso acima e não serão investigados encontra-se o governador Aécio Neves, que consta da "lista do Mourão" como recebedor de R$110 mil do esquema do valerioduto tucano.
24/11/2007
Investigação sobre valerioduto mineiro chega a Danilo de Castro
Da Folha hoje:
Embora centrada em episódios da campanha de 1998 à reeleição do ex-governador de Minas Gerais e hoje senador Eduardo Azeredo (PSDB), a denúncia da Procuradoria Geral da República sobre o valerioduto tucano deve afetar o futuro político de dois aliados de primeira mão do governador Aécio Neves (PSDB-MG).
Os tucanos Danilo de Castro e Mauri Torres - secretário estadual de Governo e líder de Aécio na Assembléia Legislativa, respectivamente - avalizaram, em novembro de 2004, após as eleições municipais, empréstimo de R$ 707 mil que a agência de publicidade SMPB, então de Marcos Valério, tomou no Banco Rural. Ambos dizem ter atendido a um "pedido pessoal" de Ramon Cardoso, ex-sócio de Valério.
A denúncia da Procuradoria pede que a conduta de Castro e Torres seja apurada pelo Ministério Público de Minas. Cita que as agências de Valério SMPB e DNA ganharam licitações no governo mineiro "justamente" sob Castro como responsável pelo certame. Em 2004, a SMPB também atendia o Legislativo mineiro.
Ocorre que a Promotoria mineira já investiga o caso desde fevereiro de 2006, a partir de reportagem da Folha que revelou o episódio. Aguarda há meses o envio de laudo do Instituto Nacional de Criminalística sobre o destino do empréstimo, incluso na denúncia do procurador-geral, para definir o andamento da apuração.
Se for comprovado, por exemplo, que o dinheiro abasteceu candidaturas municipais naquele ano, Castro e Torres - importantes operadores políticos de Aécio - deverão ser acionados por improbidade administrativa. Caso os recursos tenham circulado apenas dentro da SMPB, como alega Valério, a investigação é arquivada.
25/11/2007
Aécio ameaça repórter da Folha
Da Folha hoje:
(…) Ontem, Azeredo passou o dia fechado em seu gabinete. Pela manhã, recebeu a visita do governador Aécio Neves (PSDB-MG). (...) Aécio Neves justificou ter ido prestar-lhe solidariedade. "Tenho um respeito enorme pelo Azeredo, homem de bem, senador legitimado pelo voto. Isso é um percalço da vida." Aécio se irritou, no entanto, quando perguntado se a denúncia também não o atingiria. "Aí você avalia, pode atingir você também", disse à Folha.
***
Cinco jornalistas já atribuíram suas demissões à publicação de informações que teriam desagradado o governo Aécio. Até no perfil do governador no Le Monde ficou registrada essa, digamos, peculiaridade do governo de Minas.
Com esse histórico de suspeição que pesa sobre suas costas, Aécio ainda diz a uma repórter que o pergunta se uma denúncia poderia atingí-lo que ela "pode atingir você também"?!? Tenha santa paciência...
Aécio tem "imprensa simpática à sua gestão em Minas"
Por Malu Delgado, em matéria sobre a sucessão presidencial de 2010, na Folha deste domingo:
(...)
As chances do mineiro (Aécio na disputa da cabeça de chapa do PSDB com Serra) aumentariam na medida em que apresente um resultado administrativo inovador no Estado. Ele elegeu duas áreas de destaque no segundo mandato: educação e segurança pública.
(...)
Nas projeções petistas, a viabilidade maior é mesmo a candidatura de Serra. Porém, arrepiam só de pensar numa mudança de cenário com Aécio Neves na cabeça da chapa tucana. Acham que, ao contrário de Serra, ele tem forte carisma e teria uma penetração muito forte no Nordeste.
Isso sem contar o absoluto controle eleitoral de Aécio sobre o segundo maior colégio eleitoral do país, a adesão maciça de prefeitos, com uma imprensa simpática à sua gestão no Estado.
Assinante lê mais aqui.
***
"Imprensa simpática", sei.
Quer dizer então que as áreas prioritárias do governo Aécio para o segundo mandato são "educação e segurança pública"? Vamos ficar de olho no que diz a "imprensa simpática" sobre esses assuntos. (...)
Estado de Minas não cita Cemig e Copasa nas matérias sobre valerioduto tucano
Do Estado de Minas neste domingo:
(...)
Na denúncia, ele (o procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza) sustenta que houve desvio de R$3,5 milhões dos cofres públicos para a campanha à reeleição do então governador Eduardo Azeredo, hoje senador tucano. E aponta que esse valor pode ter sido maior. Segundo Antônio Fernando, há indícios, no inquérito, de uso de mais R$1.673.981,90 para financiamento dos gastos eleitorais do tucano.
Assinante confere aqui.
***
Os grifos acima são meus. Reparem que o "desvio de R$ 3,5 milhões dos cofres públicos" diz respeito ao dinheiro que, segundo a denúncia, foi desviado da Copasa, da Comig e do Bemge. E os mais deR$ 1,6 milhões a que se refere a matéria foram desviados da Cemig.
Por que o Estado de Minas não diz a seus leitores que, em 1998, houve desvio de recursos (corrupção, para ser mais claro) nas empresas públicas do governo de Minas perpetrado por uma administração tucana?
O fato é que as empresas públicas mineiras, como Cemig e Copasa, são atualmente grandes anunciantes do governo Aécio. Ou seja, o governo estadual faz propaganda de seus feitos sob a fachada institucional dessas empresas.
Resumindo, Cemig e Copasa são hoje grandes propagandistas do governador e o Estado de Minas omite que, no passado recente, foram assaltadas por tucanos. A mim parece que quando a Folha de hoje falou em "imprensa simpática" usou um baita de um eufemismo.
A tempo: o Estado de Minas é possivelmente o único jornal do Brasil que fala sobre um "suposto caixa 2″ quando se refere ao valerioduto tucano.
sexta-feira, novembro 23, 2007
Cobertura capenga cava a cova: Aécio sabia? FHC sabia?
(do blog do Azenha)
Cobertura capenga cava a cova. Simples assim. O povo não é bobo, nem a Rede Globo. Presumir que o público não consegue enxergar as distorções, manipulações e omissões praticadas nas redações brasileiras é subestimar os leitores, ouvintes e telespectadores. O que se dá é um processo de aprendizagem. Recebi uma curiosíssima mensagem de um leitor do site que disse ter crescido com a obrigação de assistir, todas as noites, ao lado do pai, ao Jornal Nacional.
Mais recentemente, este leitor proporcionou ao pai a oportunidade de acessar a internet. Os hábitos da casa mudaram. O leitor contou que o pai se deu conta, de repente, da diversidade de fontes e de que é possível confrontar informações como nunca, na História.
O problema de trombar com os fatos é simples: você cria a expectativa de que o mundo vai acabar se a Venezuela for aceita no Mercosul, promove uma luta titânica entre os pró e os contra e, de repente, a CCJ da Câmara Federal aprova o parecer por ampla maioria. O leitor, ouvinte e telespectador fica sem entender nada... É o que os americanos chamam de "wishfull thinking", ou seja, um pensamento refém do desejo.
O jornalismo brasileiro é refém de seus desejos políticos e ideológicos. Batem o bumbo continuamente, oferecendo aos consumidores uma cobertura desequilibrada dos fatos. A Venezuela reduziu fortemente a pobreza? Página 25. Faltam produtos na Venezuela por causa do aumento da demanda? Página 30. Filas na Venezuela? Primeira página. A deputada chavista bateu num jornalista? Primeira página, sem contar a história direito para que não seja possível dar razão a ela.
Qual é o resultado disso? O público leitor, ouvinte e telespectador acha que o mundo está acabando na Venezuela. E se no dia 2 de dezembro, no plebiscito para aprovar ou não as mudanças constitucionais, o Chávez vencer com 60% dos votos válidos, como tem sido a tradição? Vão dizer que o povo venezuelano foi iludido? Foi comprado com o bolsa família? Qual será a explicação? A mídia cava a cova a cada cobertura capenga.
Falemos, agora, do "mensalão mineiro", que não houve. Em Minas Gerais houve desvio de dinheiro público de origem conhecida para financiar a campanha de reeleição de Eduardo Azeredo. Era essencial eleger Azeredo, uma vez que, como aliado de Fernando Henrique Cardoso, ele daria uma tremenda força ao projeto dos tucanos de privatizar Furnas. Itamar Franco venceu e freou a privataria.
Além dos empréstimos bancários, não se sabe com certeza, ainda, a origem do dinheiro do mensalão petista, nem foi estabelecida com clareza a relação entre pagamentos mensais a senadores e deputados e o resultado de votações favoráveis ao governo no Congresso. Essa é a verdade factual. Existe uma forte suspeita de que o Banco do Brasil tenha contribuído.
Voltando ao valerioduto tucano, de acordo com a lista de Cláudio Mourão, um dos acusados de participar do esquema, dos R$ 100 milhões de reais arrecadados houve a destinação de R$ 4,5 milhões a Eduardo Azeredo para "saudar compromissos diversos". Onde é que Azeredo usou esse dinheiro? É uma pergunta que deveria ser feita a ele. Dá até para exibir o recibo que ele assinou para perguntar se é verdadeiro ou falso:
"The devil is in the details", o diabo está nos detalhes, dizem os americanos. Qual é a lista de acusados do desvio de dinheiro promovido pela coligação PSDB/PFL em Minas?
a) Eduardo Gomes foi secretário de comunicação do governo de Minas Gerais no primeiro mandato do tucano Aécio Neves, como registrou a "Folha";
b) Clésio Soares de Andrade foi vice-governador de Minas Gerais no primeiro mandato de Aécio Neves.
O que deveria levar à pergunta óbvia: Aécio Neves sabia? De acordo com a lista do tesoureiro Mourão, Aécio foi um dos beneficiários do esquema de desvio de dinheiro público, recebendo ajuda para sua campanha a deputado federal em 1998, embora os políticos de Minas, inclusive do PT, tenham escapado da denúncia.
Temos também a declaração, dada pelo próprio senador Eduardo Azeredo, ex-presidente do PSDB, de que dinheiro arrecadado para a campanha dele irrigou a campanha presidencial de Fernando Henrique Cardoso em Minas, em 1998. FHC sabia?
Estas são perguntas que os comentaristas tucanos, nas rádios, nas emissoras de TV e nos jornais, NÃO FARÃO como fizeram durante os escândalos envolvendo Lula e o mensalão petista. Porém, se o princípio é mesmo de tratar iguais como iguais, não seria o caso de algum repórter perguntar a Fernando Henrique Cardoso se ele sabia do esquema de Minas?
De acordo com a coluna Toda Mídia, do Nelson de Sá, na "Folha de S. Paulo", a TV Globo evoluiu de "o esquema conhecido como valerioduto mineiro" para "o valerioduto do PSDB mineiro", na chamada do Jornal Nacional. É um tremendo avanço. Como não tenho o hábito de ver TV, não sei se entrou ou não o organograma da quadrilha tucana. Eu me lembro que, em plena campanha eleitoral de 2006, os organogramas eram comuns na emissora, inclusive um que colocou Freud Godoy na sala ao lado do gabinete da presidência da República. Freud, ficou provado mais tarde, não tinha nada a ver com o escândalo da tentativa de compra de um dossiê por aloprados petistas. Mas a mídia abandonou o assunto assim que a campanha eleitoral terminou e Freud ficou como o "anjo negro" de Lula, segundo a definição de Veja, numa alusão ao capanga de Getúlio Vargas.
O público brasileiro é subestimado de tal forma que a Globo acha que isso não tem ABSOLUTAMENTE nada a ver com queda de audiência!
(Aqui, os documentos da Polícia Federal sobre o valerioduto mineiro. Estes não mereceram, nem de longe, a cobertura que se vê agora. Mas estamos evoluindo.)
segunda-feira, outubro 22, 2007
Agências de Marcos Valério também reinaram no governo Aécio
Perdidinha, tímida e escondinha, esta nota na Folha deste domingo
Valério dominou as licitações do 1° governo Aécio
Entre 2004 e 2005, os pagamentos do governo mineiro às empresas de Marcos Valério SMPB Comunicação e DNA Propaganda somaram R$ 30,3 e R$ 8 milhões, respectivamente. Das 14 maiores campanhas publicitárias do governo em 2004, que totalizaram de R$ 21,8 milhões, SMPB e DNA ficaram com R$ 10,6 milhões (49%).
Repararam nos anos: 2004 e 2005? Como se vê, só parou porque o escândalo do chamado "mensalão do PT" estourou em 2005.
Que tal uma investigada nesses dois anos? Quem sabe o valerioduto tucano, que começou no governo Azeredo, não continuou no governo Aécio? Afinal, essa era a especialidade de Marcos Valério.
(do Blog do Mello)
Enquanto isso, no mundo de Caras, o que continua convenientemente dando assunto é o namorico do governador com a miss. Apesar do desmentido público da própria moça sobre o "relacionamento", segundo essa notinha aqui, Aécio teria dito que ia "transformar a segunda mulher mais bonita do mundo na primeira-dama do país". Isso é que é cortina de fumaça, o resto é retalho!
terça-feira, outubro 02, 2007
Em tom ríspido, Aécio diz que não tem relação com valerioduto mineiro
(Por Henrique Gomes Batista, do jornal O Globo)
BRASÍLIA - O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), costuma dizer que sempre é bem-humorado, mas não foi o que transpareceu ao ser questionado por jornalistas se teme que o relatório que investiga o valerioduto em Minas Gerais respingue em sua carreira:
- Olha. Eu sou a pessoa menos adequada para falar desse assunto, até porque desconheço, não tem qualquer relação comigo. Não tenho a falar com isso, você vai encontrar outras pessoas mais qualificadas para falar sobre isso, querida. Eu fui governador em 2002 e 2006 e por estas campanhas eu respondo - disse, em tom ríspido.
O principal alvo tucano da denúncia do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, sobre o mensalão mineiro, deverá ser o senador Eduardo Azeredo (MG). O partido, entretanto, já decidiu lavar as mãos em relação à sua defesa. Na semana passada, o comando do partido teve uma conversa definitiva com o ex-governador mineiro. O presidente do partido, senador Tasso Jereissati (CE), o líder da bancada no Senado, Arhur Virgílio (AM), e o senador Sérgio Guerra (PE) fizeram uma análise criteriosa da da situação. De forma reservada, a cúpula tucana já tem uma posição de que Azeredo deve fazer sua defesa solitária, sem envolver o PSDB.
A constatação no ninho tucano é de que o partido já se desgastou muito em 2005 quando, para proteger o governador Aécio Neves e o próprio Azeredo, que ocupava então o cargo de presidente do PSDB, resolveu amenizar o tom das críticas ao escândalo do mensalão.
Os tucanos temem ser acusados de um acordão com o Planalto, porque o ministro das Relações Institucionais e articulador político do Palácio, Walfrido dos Mares Guia, faz parte do mesmo esquema já conhecido como valerioduto mineiro.
segunda-feira, outubro 01, 2007
Andréa Neves ascende como guardiã da imagem do irmão
(César Felício e Ivana Moreira, para o jornal Valor Econômico de hoje, 01/10)
Uma menção aparentemente gratuita da Polícia Federal no inquérito sobre o mensalão mineiro jogou luz sobre uma das peças-chave do governo de Aécio Neves (PSDB). A referência traz à superfície a discreta jornalista e historiadora Andréa Neves da Cunha, 48 anos, irmã mais velha de Aécio, oficialmente chefe do serviço de assistência social do Estado e comandante de fato da área de comunicação da administração. Conhecido por delegar funções, Aécio assenta seu governo em um tripé: a parte administrativa está sob o comando do vice-governador Antonio Junho Anastasia, a costura política local fica a cargo do secretário de Governo, Danilo de Castro. Imagem e estratégia estão com a irmã.
Na página 86 do inquérito, trata-se de Lidia Maria Alonso Lima, a beneficiária de um saque de R$15 mil de uma das contas controladas pelo publicitário Marcos Valério de Souza. Como várias outras pessoas da lista, Lidia Maria disse à Polícia que recebeu os recursos a pedido de um candidato, no caso o pemedebista, já falecido, Eduardo Brandão. Em seguida, o relatório detalha: "Lídia Maria na época deste recebimento trabalhava na empresa Comercial Factoring Ltda, de propriedade de Andréa Neves da Cunha. Em outro depoimento, Lidia Maria relata ter feito parte dos quadros societários da empresa Taking Care, juntamente com Andréa Neves".
A menção a Andréa ocorre no momento em que a jornalista comanda a operação para minimizar os danos do noticiário do mensalão sobre seu irmão. Partiu da jornalista, isolada em seu gabinete no Serviço de Assistência do Estado (Servas) e em permanente contato com assessores do governo, a estratégia de aguardar uma semana de repercussão para que Aécio se pronunciasse publicamente.
Hábil em operações de blindagem e preservação de imagem, Andréa Neves só conversa sobre si com jornalistas amigos. Sua única atuação como profissional de imprensa foram algumas reportagens feitas para a revista "Pais e Filhos", nos anos 80. Ao vir para o primeiro plano, atribuiu à sua equipe a tarefa de detalhar sua situação empresarial. Assessores do governo mineiro esclarecem que Andréa foi dona da empresa de factoring entre 1993 a 1999, até a morte do marido e sócio Herval Braz, depois de um ano de luta contra o câncer. Tinha 50% do capital. Em 1996, montou com Herval, também jornalista e editor-chefe do jornal "Hoje em Dia", o segundo mais lido de Belo Horizonte, uma empresa de aluguel de carrinhos de bebê em shopping centers, com o nome em inglês. Ao ficar viúva, fechou a empresa de fomento mercantil e substituiu Herval pelo próprio Aécio, então deputado federal, como sócio da Taking Care.
Eleito governador em 2002, quatro anos depois do depósito de Marcos Valério para a funcionária de Andréia, Aécio saiu da sociedade e foi substituído, durante três anos, por Lidia Alonso. A Taking Care não é a única empresa da jornalista, cuja ascendência sobre o irmão é alvo de uma vasta mitologia em Minas Gerais. Andréa também está à frente da NC (Neves da Cunha) Participações, empresa que gere investimentos em comum dos irmãos (além do governador, há a irmã caçula, Ângela, dona de casa) e principal item patrimonial de Aécio em sua declaração de bens de 2006, quando o governador afirmou possuir cotas de capital no valor de R$193,4 mil.
Segundo a jornalista informou por meio da assessoria de imprensa do governo, a NC fora concebida para a administração de imóveis, mas hoje tem como única fonte de renda o aluguel de uma sala comercial na Avenida do Contorno, em Belo Horizonte. Andréa ainda é a responsável por duas emissoras de rádio FM, em Betim e São João del Rey, concessões dadas à família durante o governo Sarney.
Na campanha de 2006, em que Andréa atuou como uma das coordenadoras da reeleição do irmão, ela já havia sido o principal alvo da oposição. E como costuma acontecer na luta política do Estado, de forma indireta: seu nome constou como uma das operadoras no Estado do suposto caixa 2 descrito pela "Lista de Furnas", um documento cuja autenticidade está comprovada pela Polícia Federal, mas cujo conteúdo foi declarado falso pela CPI dos Correios. A lista foi colocada na Internet por militantes do PT mineiro. Andréa também ganhou ares de rainha cortadora de cabeças: circulou na Internet um vídeo onde seis jornalistas a responsabilizam diretamente pelas suas demissões, por terem feito reportagens que teriam desagradado o Palácio da Liberdade. A campanha de Aécio posteriormente conseguiu que dois dos jornalistas desmentissem a versão.
Adversários do PSDB e aliados são quase unânimes em afirmar - sempre sob reserva - que Andréa não cuida da captação de recursos e pagamento de fornecedores nas campanhas que se envolveu - todas as disputadas pelo irmão, desde a fracassada tentativa de se eleger prefeito de Belo Horizonte em 1992. Apesar da negativa do governo do Estado sobre a blindagem do governador, na primeira semana de repercussão do chamado "mensalão mineiro", o tema foi ignorado pelos jornais de Belo Horizonte.
O gerente de uma emissora de televisão relata casos em que funcionários da secretaria de Comunicação teriam obrigado repórteres a refazerem entrevistas, porque não gostaram das perguntas feitas a autoridades estaduais. Jamais partiu de Andréa, contudo, a iniciativa de ligar para uma chefia de redação. As reclamações partem de seus comandados, que negam, peremptoriamente, terem algum dia exigido a cabeça de qualquer jornalista.
Chefe do serviço de assistência social do Estado, Andréa é comandante de fato da área de comunicação.
Oficialmente, Andréa coordena o "Grupo Técnico de Comunicação", uma equipe de pelo menos doze profissionais de mídia empregados na estrutura do Estado que determina as ações de marketing. Um integrante deste grupo relatou a um amigo a cena de uma reunião. Segundo o relato, discutia-se a presença ou não do governador em um evento público que também contaria com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Aécio havia decidido não comparecer.
Depois de ouvir o colegiado, Andréia teria ligado para o irmão e dito que Aécio deveria ir. O governador ainda teria resistido, ela argumentou que, em situação semelhante, outros governadores oposicionistas como José Serra iriam. Aécio acabou comparecendo. A cena não é confirmada pela assessoria de Andréa.
Este não é o único ambiente em que Andréa discute estratégia de comunicação. A jornalista também participa de encontros eventuais de Aécio com estrategistas de marketing político e diretores de institutos de pesquisa. No primeiro mandato do governador, fazia parte de um grupo ouvido por Aécio sobre a orientação política de seu governo.
Nenhum aliado ou adversário de Aécio confirma a corriqueira versão de que Andréa seria plenipotenciária no governo, mas todos convergem na construção da mesma imagem: a irmã mais velha comporta-se de modo maternal com o governador. De longe, seria a pessoa com maior ascendência sobre Aécio Neves. Ela detesta esta versão. Por meio da assessoria de imprensa do governo, lembrou que Aécio foi eleito presidente da Câmara em 2001 e quatro vezes feito líder da bancada tucana, sem que a irmã tenha sequer se aproximado de Brasília.
A relação entre Andréa e Aécio - eles nasceram, respectivamente, em 1958 e 1960 - estreitou-se em decorrência de uma dificuldade encontrada na infância: a separação dos pais, o então deputado Aécio Cunha e Inês Maria Neves, filha do presidente Tancredo Neves, falecido em 1985. O caminho dos dois se bifurcou após a adolescência.
Andréa foi estudar história e jornalismo na PUC do Rio, participou da fundação do PT fluminense e começou a transitar nos círculos esquerdistas da zona sul carioca. Tornou-se notícia pela primeira vez ao testemunhar a explosão do Puma ocupado por um sargento e um capitão do Exército no estacionamento do Riocentro, em 1981, provavelmente uma mal-sucedida operação terrorista para sabotar a abertura política. Aécio foi para Belo Horizonte estudar economia na PUC mineira e assessorar o avô.
A convergência voltou a ocorrer em 1984. Depois da derrota da emenda das eleições diretas no Congresso, Andréa tornou-se a coordenadora no Rio da campanha que visava manter a mobilização popular em torno da eleição indireta para presidente. O grupo conseguiu atrair diversas personalidades da época: do travesti Roberta Close à atriz Cristiane Torloni, do grupo de rock Ultraje a Rigor a jogadores de futebol e ao escritor Ziraldo. Estava com Andréa um grupo que posteriormente se tornou heterogêneo: continha desde futuros tucanos como o atual deputado e ex-prefeito de Vitória, Luiz Paulo Velloso Lucas (PSDB), ou o futuro parlamentar Milton Temer, hoje ex-deputado e integrante do P-Sol. Aécio tornou-se secretário particular do avô e herdeiro político designado.
Após a morte de Tancredo e o casamento mal sucedido de Aécio, Andréa passou um ano em Nova York e, ao voltar, começou a ter papel ascendente em sua família: organizou o Memorial Tancredo Neves em São João del Rey, a pedido da avó Risoleta. Só voltou a Belo Horizonte em 1991, quando tornou-se secretária-adjunta de Cultura no governo Hélio Garcia.
O perfil radical de Andréa nos anos 80 se esfumaçou. A jornalista tem uma filha, Maria Clara, de seu primeiro marido, já falecido. Hoje está casada com o empresário Luiz Márcio Pereira, diretor do Sebrae mineiro e filho do ex-governador Francelino Pereira e comanda de forma original a assistência social em Minas. Destaca-se na filantropia estadual o alto grau de parcerias com grandes empresas e entidades patronais. A lista é extensa: empreiteiras como Camter, Barbosa Mello, Egesa, Fidens e Libe, bancos como o Itaú, multinacionais como a Nestlé e o McDonald"s, empresas do setor siderúrgico-minerador como CBMM, Mannesmann e Usiminas são apenas algumas. Na outra ponta, os recursos são distribuídos para entidades em todo o Estado.
Procurada por este jornal por dez dias, Andréa informou, via sua assessoria, que não concederia entrevista sobre questões pessoais.
sexta-feira, setembro 28, 2007
Enquanto isso, na sala de aula...
Na semana em que o TUCANODUTO (conhecido pela grande mídia como "mensalão mineiro" ou "caso mares guia") foi o assunto predominante no restante do país, a imprensa mineira, além de brincar de contorcionismo pra tirar o governador da reta sempre, também anunciou a sanção, por ele, da lei que aumenta o piso remuneratório dos professores.
Boa estratégia, ressaltar o quanto ele é camarada enquanto esconde os podres. Se bem que eu não teria cara de pau para me vangloriar de AUMENTAR o piso dos professores para 850 reais, até porque isso é admitir que nos últimos cinco anos do governo Aécio o piso era ainda menor, né? Fiquei curiosa de saber o que os professores acharam da lei, já que esse ponto de vista, eu pelo menos não vi nos jornais. Fui ao site do Sinpro-MG, o Sindicato dos Professores do Estado de Minas Gerais, e olha só o que eu achei:
Governo estadual estabelece piso abaixo da expectativa dos trabalhadores em educação
No dia 25 de setembro, foi sancionada pelo governador Aécio Neves a Lei 17006 que institui o piso remuneratório de R$ 850,00, a partir de janeiro de 2008, para os professores estaduais que trabalham 24 horas semanais. Na verdade, o trabalhador que recebe menos do que esse valor, passará a receber a diferença em forma de um novo abono, a Parcela de Complementação Remuneratória do Magistério (PCRM). Mais uma vez, o governo estadual cria abonos ao invés de valorizar efetivamente o salário dos professores.
Segundo Gilson Reis, presidente do SinproMinas, essa tática de inventar abonos e achatar salários é um artifício usado pelos governos neoliberais desde a época de FHC. "Esses abonos não contam para a aposentadoria e nem para outros direitos trabalhistas, como férias e licenças. O professor continua penalizado pelos baixos salários", avalia.
Em seu boletim do dia 20 de setembro, o Sindicato dos Trabalhadores em Educação (SindUte), que representa os professores da rede estadual, informa que o projeto de lei foi aprovado apesar dos protestos da categoria. "O projeto descaracteriza o plano de carreira, mantém tabelas salariais com vencimento básico abaixo do salário mínimo, além de tratar de forma diferenciada profissionais da educação que desempenham funções assemelhadas. Para valorização dos profissionais, é necessária a implantação de piso salarial (que é igual a vencimento básico) vinculado à formação e à jornada de trabalho, com possibilidade de avanço na carreira".
quarta-feira, setembro 26, 2007
Aécio diz que todo homem público tem de se explicar
Mais uma pérola, do Estado de Minas de hoje:
O governador Aécio Neves (PSDB) comentou nessa terça-feira os resultados da investigação envolvendo um suposto esquema de caixa 2 na campanha de 1998, do atual senador Eduardo Azeredo (PSDB) ao Palácio da Liberdade. "Acho que cada um tem que responder às denúncias. Minas Gerais conhece muito bem o senador e ex-governador Eduardo Azeredo, que é um homem de bem. Ele tem apresentado as suas justificativas e caberá ao procurador (geral da República, Antonio Fernando), em primeira instância, analisá-las e, obviamente, na seqüência, ao Supremo Tribunal Federal (STF)".
Segundo o governador, os homens públicos devem dar explicações à sociedade sobre os atos pelos quais são questionados. "Os homens públicos, devem todos eles, em qualquer momento, estar absolutamente prontos para dar explicações à sociedade. É o que espero que ocorra. Até porque, na minha avaliação, há uma diferença muito grande entre aquilo que ocorreu no plano federal com os problemas que ocorreram na campanha do então candidato Eduardo Azeredo", afirmou. O governador assinalou que Azeredo terá tempo de apresentar os seus argumentos, demonstrando "que não há paralelo entre uma questão e outra".
Quando indagado sobre a posição do PSDB diante da provável denúncia ao STF, Aécio disse que "no momento oportuno", o PSDB se manifestará. "O partido tem enorme confiança na trajetória política do governador e senador Eduardo Azeredo. Acho que Minas o conhece bem. Repito: é um homem de bem e ele deve ter a oportunidade, eu chamaria assim, isonômica em relação às acusações que surgem em relação àquela campanha, também para se defender", declarou. De acordo com Aécio, o PSDB estará ao lado de Azeredo para ouvir suas justificativas. "Eu acho que, na vida pública, devemos estar sempre muito abertos e dispostos a dar explicações e é certamente o que o senador Eduardo Azeredo fará no momento em que for necessário", afirmou.
Não bastasse a desfaçatez do governador e do jornal em ignorar solenemente que ele, Aécio, também está na lista, também está sob suspeita e também deveria "estar aberto e disposto a dar explicações", o Estado de Minas ainda pôs a cerejinha no alto do bolo na chamada de sua versão on-line:
Caso Mares Guia?
CASO MARES GUIA???
!!!
terça-feira, setembro 25, 2007
O que fazer quando o assunto do momento no país inteiro é aquele sobre o qual não se pode falar em hipótese alguma?
Eu fico impressionada (sim, ainda fico), em como a cara desse povo não queima. Veja matéria publicada hoje, 25/09, no jornal O Tempo, de Belo Horizonte:
Sentiu falta do nome de algum político de expressão aí? Ou de referência a um certo cargo de importância máxima no Estado? Reparou que quando se considera o indiciamento, não são incluídos os então candidatos a deputado? E o termo "mensalão", você viu em algum lugar? Nem eu.
Além disso, vamos ver se você adivinha qual das matérias abaixo listadas foi a única a NÃO merecer a honra de ter uma chamada, mínima que fosse, na capa do jornal:
a) MP quer devolução de dinheiro de caixa dois;
b) Título corintiano foi "roubado";
c) Argentina é sede da Copa do Mundo Gay de Futebol;
d) Dezenas de monges budistas fazem protesto em Mianmar.
Sem comentários.
***
Enquanto isso, o blog Acerto de Contas faz um interessante cálculo sobre quanto valeria hoje os R$110 mil atribuídos ao pagamento "daquele que não deve ser nomeado":
(...) Pois bem, de acordo com o IPCA, fornecido pelo IPEA Data, se os R$110.000,00 tivessem sido recebidos em outubro de 1998, esse valor seria hoje R$203.265,78.
Se Aecio ficasse com o tucanoduto, e aplicasse em algum fundo DI disponível no mercado, teria hoje uma poupança bem superior: aproximadamente R$517.595,01, menos a taxa de administração cobrada dos bancos.
Pouco mais de 25 vezes a mensalada do Professor Luizinho.
segunda-feira, setembro 24, 2007
A reação de Aécio
(Hugo Studart, para a revista Istoé)
O governador condecora o procurador da República e sua assessoria nega "qualquer repasse" do Mensalão Mineiro
O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), sabia há mais de um ano que seu nome era citado em uma lista como beneficiário de R$110 mil provenientes de caixa 2 da campanha tucana de 1998 em Minas. Ele sabia também que essa lista fazia parte do inquérito da Polícia Federal que investigava o Mensalão Mineiro. E que o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, estava às vésperas de encaminhar ao Supremo Tribunal Federal denúncia contra os envolvidos nesse esquema. Na sexta-feira, 14, sem saber que ISTOÉ circularia no dia seguinte com os documentos do caso, o governador encontrou uma forma de obter do procurador alguma sinalização sobre sua efetiva situação no inquérito. Antonio Fernando esteve em Belo Horizonte para receber uma medalha do Ministério Público do Estado. Aproveitando a visita, Aécio resolveu convidá-lo para receber uma outra comenda: a Medalha da Inconfidência, tradicionalmente entregue no dia 21 de abril em Ouro Preto. Certamente, se estivesse prestes a relacioná-lo entre os envolvidos no Mensalão, Antonio Fernando não aceitaria a honraria, calculou Aécio. Mas o procurador aceitou a comenda. Aécio ficou tranqüilo.A cerimônia foi discreta, exclusiva e rápida. Por volta das 9 horas, o governador perfilou todo o secretariado para aplaudir o procurador-geral no Palácio da Liberdade, sede do governo mineiro. Entre os presentes estavam quatro secretários de Estado também relacionados pela PF como tendo recebido dinheiro do Mensalão Mineiro. Logo depois, Aécio voltou a aplaudir Antonio Fernando na sede do Ministério Público, onde o procurador recebeu a segunda medalha do dia. Dois ministros do Supremo também receberam a mesma comenda, Joaquim Barbosa e Carmen Lúcia Rocha. Por coincidência, Barbosa é o relator do processo do caixa 2 tucano. Terminada a cerimônia, foram todos para Sabará almoçar na casa do ex-ministro do STF Sepúlveda Pertence. A refeição durou uma hora e meia e Aécio não ousou tocar no assunto que o preocupava, garante um dos presentes. "Vai dar tudo certo", confidenciou Aécio a um amigo, logo depois do almoço.
No dia seguinte, depois de publicada reportagem de ISTOÉ revelando o relatório final da Polícia Federal sobre o Mensalão Mineiro, Aécio se recolheu em silêncio. Na quarta-feira, 19, em sua única manifestação sobre o caso, encaminhou através de assessores uma nota à redação garantindo que, em 1998, "não houve repasse de quaisquer recursos financeiros para o então candidato Aécio Neves", e que "o nome do governador não é citado nas 172 páginas do relatório divulgado pela Polícia Federal". Diz ainda a nota que "em relação à lista contendo os nomes de 159 candidatos, a própria PF não atesta o conteúdo da mesma". De fato, como ISTOÉ revelou, a lista apresenta casos distintos. Há 82 políticos da lista com documentos bancários que provam o recebimento do dinheiro. Outros, como é o caso de Aécio, estão apenas citados na lista do ex-tesoureiro da campanha. No dia 30 de setembro, o procurador faz aniversário, mas quem pode ganhar um presente é o governador.
PF espera ouvir Aécio Neves
(Sérgio Pardellas, no Jornal do Brasil de ontem, 23/09)
A POLÍCIA FEDERAL AGUARDA com grande expectativa a decisão do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, sobre o mensalão mineiro, prevista para o fim do mês. Policiais que atuaram nas investigações acham que, além de denunciar o grupo que gravita em torno do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), o procurador pedirá novas diligências sobre temas que ficaram em aberto no relatório: o depoimento dos políticos que aparecem como supostos beneficiários do dinheiro usado na campanha eleitoral de 1998 - entre eles, o governador Aécio Neves - a quebra de sigilo para efeito de rastreamento bancário das empresas de Marcos Valério (DNA e SMP&B) e novas investigações sobre estatais mineiras como o Bemge, as Companhias de Saneamento (Copasa), Energética (Cemig) e Mineradora (Comig), de onde saíram os cerca de R$5 milhões para irrigar o valerioduto mineiro.
As investigações apontam uma clara vinculação entre as estatais e o dinheiro que migrou para as empresas de Marcos Valério, mas não avançaram sobre o destino final dos recursos, diluídos em mais de 170 contas de campanhas eleitorais anotadas no chamado relatório Cláudio Mourão. Policiais apostam que Antonio Fernando de Souza pode não denunciar o ministro das Relações Institucionais, Walfrido Mares Guia, mas pedirá que as investigações sobre as atividades da empresa dele, a Samos Participações Ltda, sejam aprofundadas. Ninguém tem dúvidas na PF de que Walfrido atuou firme na campanha de Azeredo em 1998, indicando nomes de políticos que receberiam dinheiro do esquema de Valério, embora o publicitário, ao contrário do que fez no caso do mensalão do PT, tenha recuado e recusado-se a delatar.
Assunto sério
Motivados pela iminente denúncia do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, sobre o tucanoduto mineiro, os principais caciques tucanos trocaram demorados telefonemas durante a semana.
Discurso combinado
O ex-presidente Fernando Henrique, o senador e presidente nacional da legenda, Tasso Jereissati (PSDB-CE), e os governadores de Minas Gerais, Aécio Neves, e de São Paulo, José Serra, afinaram o discurso. A ordem é tratar o assunto como o velho recurso não contabilizado, ou seja, o caixa 2, a fim de marcar diferença com o mensalão petista.
quarta-feira, setembro 19, 2007
JN JÁ TEM CANDIDATO A PRESIDENTE
. O Jornal Nacional desta terça feira, dia 18, fez reportagem sobre um suposto "mensalão" do PSDB de Minas.
. A reportagem envolve o senador Eduardo Azeredo, do PSDB, e o Ministro Mares Guia, da articulação política do Presidente Lula.
. Mas o JN nem chegou perto do nome mais ilustre do PSDB de Minas, o Governador Aécio Neves, que aparece em todas as listas do "mensalão" mineiro.
. Quem disse que já conhecia o teor da denúncia que o Procurador-Geral da República fará sobre o suposto "mensalão" de Minas foi a revista IstoÉ.
. Como a IstoÉ tem características de um jornalismo chamemos de ... inconsistente ..., a reportagem pode ter sido o primeiro torpedo contra a candidatura de Aécio à Presidência da República.
(Clique aqui para ler sobre a reportagem da IstoÉ e quem botava dinheiro no "valerioduto")
. Como se sabe, os adversários do presidente eleito José Serra correm, sempre, o risco de ser alvejados por torpedos sob a forma, por exemplo, de dossiês.
. Só que Aécio Neves parece que venceu essa primeira barreira – se, de fato, o torpedo partiu do Palácio dos Bandeirantes - da longa caminhada que o aguarda, até ser escolhido o candidato do PSDB a Presidente.
. E venceu com direito a medalha de ouro.
. O Jornal Nacional não se deu ao trabalho de incluir Aécio Neves entre os envolvidos no "mensalão" de Minas.
. José Serra deve estar a se roer de raiva...
(Paulo Henrique Amorim, a quem eu gostaria de mandar uma porção do melhor pão de queijo das gerais, em seu ótimo Conversa Afiada)
terça-feira, setembro 18, 2007
O que a mídia não te conta
Senador Azeredo teria recebido R$ 4,5 milhões para "questões pessoais"
O inquérito da Polícia Federal que investigou o valerioduto mineiro nas eleições de 1998 diz que a campanha de reeleição do então governador e agora senador Eduardo Brandão de Azeredo arrecadou cerca de R$ 100 milhões, embora a campanha tenha declarado ao TRE despesas de pouco mais de R$ 8,5 milhões.
O tesoureiro Cláudio Roberto Mourão da Silveira moveu ação contra Eduardo Azeredo e Clésio Andrade (vice-governador no primeiro mandato de Aécio Neves) com o objetivo de obter pagamento de dívidas que teria assumido em seu nome.
Cláudio nomeou Nilton Monteiro como seu procurador para negociar um acordo.
E entregou a ele uma lista de três páginas com a discriminação detalhada dos métodos de arrecadação e os gastos da campanha.
Ao depor à Polícia Federal, Cláudio negou que houvesse passado a procuração e disse que não assinou a lista que ficou conhecida como "lista do Mourão".
Porém, as análises da PF demonstraram que é dele a assinatura nos dois documentos, sem qualquer possibilidade de que tenham sido transpostas de outro papel.
A PF admite que Mourão pode ter turbinado a lista, com o objetivo de obter um acordo melhor com aqueles que considerava devedores.
A lista, de três páginas, descreve minuciosamente as fontes do dinheiro.
Um dos truques, segundo o documento assinado por Mourão, foi na promoção do Enduro da Independência pela agência SMP&B, de Marcos Valério.
Da administração direta, ou seja, do governo de Minas, a agência recebeu R$ 2 milhões; da administração indireta, ou seja, de empresas ligadas ao governo, obteve mais de R$ 10,6 milhões.
Entre as empresas estão a CEMIG (Companhia Energética de Minas Gerais), a COPASA (Companhia de Saneamento de Minas Gerais), a COMIG (Companhia Mineradora de Minas Gerais), o BEMGE (Banco do Estado de Minas Gerais), o Crédito Real e a Loteria Mineira.
Porém, apenas uma pequena parte do dinheiro foi de fato aplicada no Enduro da Independência.
O restante foi usado na campanha.
Um dos beneficiários do "caixa dois" teria sido, segundo o documento, o atual governador de Minas Gerais, Aécio Neves, então candidato a deputado federal.
Aécio teria recebido R$ 110.000,00.
O senador Eduardo Azeredo teria recebido R$ 4,5 milhões "para compromissos diversos (questões pessoais)".
Da arrecadação total, de R$ 100 milhões, cerca de R$ 24,5 milhões teriam sido destinados ao atual ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia, "para pagamento de despesas diversas". Mares Guias era o vice-governador e havia coordenado a campanha de Azeredo em 1994.
O documento que agora Cláudio Mourão diz não ter assinado mostra que o valerioduto irrigou campanhas de dezenas de candidatos, de vários partidos, para montar a base aliada do governador.
"Parte do recurso foi com aval do governo, vindo das privatizações, de empreiteiras, Queiroz Galvão, Erkal, CBN, Egesa, Arg, Tercam, entre outros e fornecedores do Estado, de prestadores de serviços diversos, construtoras, indústrias, bancos, corretoras de valores, da CEMIG, da PRODEMG, da TELEMIG, Secretarias de Governo, inclusive da Fazenda, BANCO BDMG, de doleiros e de outros colaboradores individuais, no valor superior a cifra de R$ 80.000.000,00 (oitenta milhões de reais). Mesmo assim, ficou pendente uma dívida superior a R$ 20.000.000,00 (vinte milhões de reais)".
O relatório tem 172 páginas, foi produzido pela Diretoria de Combate ao Crime Organizado, Divisão de Repressão a Crimes Financeiros, é assinado pelo delegado Luís Flávio Zampronha de Oliveira e encaminhado ao ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal - uma vez que vários dos acusados têm foro privilegiado.
O documento é um peça importante para quem quer estudar a farra do boi com dinheiro público.
(publicado por Luiz Carlos Azenha, ontem, 17 de setembro, em seu site Vi o Mundo)
PS: em um update ontem mesmo, Azenha informa ter recebido "a informação de que uma rádio mineira tocou no assunto, dizendo que o dinheiro do valerioduto financiou várias campanhas, 'inclusive do PT'." E questiona: "Ué, então deveriam ter detonado logo o Mares Guia, que é articulador político do governo Lula."
Um saquinho de pão de queijo pra quem adivinhar o que foi que o Jornal Nacional fez hoje. Com recheio pra quem acertar se foi sequer citado o nome do digníssimo governador de Minas...
PS2: para ler a íntegra da "lista do Mourão", clique aqui.
